O tempo passou e eu me formei em solidão. Texto de - José Antônio Oliveira de Resende Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho, porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite. Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um. "Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre". E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia. "Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!" A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, dua...
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Carlos Drummond de Andrade Congresso Internacional do Medo Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas, cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas, cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte, depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
The Last of Us II
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Resolvi falar de um assunto que sempre gostei desde moleque, que são os jogos. Na verdade, minha infância foi muito regada a isto: jogos, histórias em quadrinhos e mangás, de fato, eu não lia muitos livros, não lembro da minha infância e adolescência com livros, mas de alguma fora, exercitava a leitura. Era o que me despertava interesse na época, o interesse por obras literárias só surgiu depois de eu cair de cabeça no mundo da música, que, naturalmente, tem tudo relacionado. Por possuir um público de caráter bem questionável, admito que sinto um pouco de vergonha por gostar destes joguinhos, mas acaba sendo inevitável. The Last of Us II saiu em junho de 2020, criou muita expectativa, naturalmente, por ser a sequencia do jogo mais premiado da história, as pessoas gostariam que as coisas fossem diferentes, mas elas não são. Com uma trama digna de um filme cheia de reviravoltas e algumas polêmicas para os tão frágeis fãs de videogame o jogo foi aclamado pela crítica especializada. ...
JOÃO CABRAL DE MELO NETO
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Um dos maiores poetas da língua portuguesa do século XX. Num país dominado por milicianos e pastores de igrejas neopentecostais, onde a glamourização da burrice está super em alta, onde o pesadelo parece não ter fim, nunca pensei que viveria tempo suficiente para ver a obra do meu escritor favorito ser reeditada e ainda com textos inéditos. Os poetas são como os loucos e as crianças, são os que produzem a melhor arte, são exatamente essas pessoas que tem o inconsciente coletivo, que não tem as censuras que normalmente, nós podemos ter, nós sofremos toda essas injunções, e temos que ter um controle sobre a realidade, o poeta, não. O poeta vai direto e tem uma relação quase promiscua com as palavras, mas no sentido de liberar a língua e formar uma linguagem, enriquecer a nossa língua que é tão rica o português que necessita desses poetas para desenvolver todos esses verbos irregulares, esses adjetivos que não se encontra em nenhuma outra língua do mundo. Só não sei se dá pra comemo...
Joyce Moreno 73
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Como sempre acontece num país como o nosso, terceiro mundo e tão colonizado, as verdadeiras personalidades, as grandes inteligências, são afastadas, digamos, elas ficam um pouco fora de foco, então, é bom que de vem em quando essas personalidades sejam sacudidas e trazidas ao público, para o público que nunca soube da existência dessas pessoas, possam saber. Não dá pra eu resumir a importância do trabalho da Joyce num simples post de um blog, então, eu prefiro escrever o que realmente ela representa pra mim. Conheci a Joyce em 2014 num show no Sesc Pompéia, depois disso comecei a ser um assíduo frequentador de seus shows, na maioria deles sempre esperava o final para ganhar um autografo nos discos que tenho (que não são poucos). Sempre muito gentil, lembro uma vez que fui num lançamento de uma caixinha com os seus principais trabalhos, houve uma tarde de autógrafos na unidade da Livraria Cultura que fica na Avenida Paulista (acabei de me lembrar que tirei uma foto com ela – de ...
32 anos sem Nara
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Eu tenho ao menos 10 motivos para ser apaixonado pela Nara Leão . Nara faleceu um ano antes de eu nascer, infelizmente, não pude conhece-la como tantos outros artistas da nossa música que tive o privilegio de ver ao vivo, mesmo tendo nascido nos anos 90. Ela pode não me conhecer, mas eu a conheço muito bem. Na primeira vez que escutei o disco “ Opinião de Nara ” minha vida nunca mais foi a mesma, aquela cantora de bossa nova e voz mansa teve coragem de escancarar tudo que acontecia num Brasil desigual em plena ditadura militar. Ditadura que quase a prendeu por uma entrevista cheia de críticas ao regime "os militares podem entender de canhão ou de metralhadora, mas não pescam nada de política" , rendeu até um poema do gênio da raça, Carlos Drummond de Andrade: APELO: NÃO DEIXE QUE PRENDAM NARA LEÃO Carlos Drummond de Andrade (1966) Meu honrado marechal Dirigente da nação Venho fazer-lhe um apelo Não prenda Nara Leão Soube que a Guerra, por conta, Lhe quer d...
Amou daquela vez como se fosse a última
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Fico muito contente que meu primeiro conteúdo seja pra falar sobre um dos melhores discos de todos os tempos, 'Construção' de Chico Buarque de Hollanda saiu de 1971 e ainda continua sendo absurdamente atual, principalmente por suas letras abordarem toda tensão social e política daquela época que estão se repetindo nestes últimos anos no Brasil. Conheci Construção em 2011, com 21 anos, um tanto quanto tarde, apesar de conhecer muitas músicas do Chico, este não era um dos álbuns que eu lembro de ter escutado na casa da minha tia na minha infância. Mas até que foi uma boa, em 2011 eu já tinha mais maturidade, consegui compreender perfeitamente o peso do disco e sua importância. A paixão é tanta que tenho este disco em três versões diferentes; uma da argentina numa capa dupla super caprichada, outra versão japonesa linda e com áudio perfeito com o encarte contendo todas as letras em japonês (eles são detalhistas demais e amam nossa música) e, por fim, uma edição brasileira simpl...