32 anos sem Nara




Eu tenho ao menos 10 motivos para ser apaixonado pela Nara Leão.

Nara faleceu um ano antes de eu nascer, infelizmente, não pude conhece-la como tantos outros artistas da nossa música que tive o privilegio de ver ao vivo, mesmo tendo nascido nos anos 90.

Ela pode não me conhecer, mas eu a conheço muito bem. Na primeira vez que escutei o disco “Opinião de Nara” minha vida nunca mais foi a mesma, aquela cantora de bossa nova e voz mansa teve coragem de escancarar tudo que acontecia num Brasil desigual em plena ditadura militar.

Ditadura que quase a prendeu por uma entrevista cheia de críticas ao regime "os militares podem entender de canhão ou de metralhadora, mas não pescam nada de política", rendeu até um poema do gênio da raça, Carlos Drummond de Andrade:

APELO: NÃO DEIXE QUE PRENDAM NARA LEÃO

Carlos Drummond de Andrade (1966)

Meu honrado marechal
Dirigente da nação
Venho fazer-lhe um apelo
Não prenda Nara Leão

Soube que a Guerra, por conta,
Lhe quer dar uma lição. Vai enquadrá-la
– esta é forte –
Artigo tal... não sei não

A menina disse coisas
De causar estremeção?
Pois a voz de uma garota
Abala a revolução?

Nara quis separar
O civil do capitão
Em nossa ordem social
Lançar desagregação?

Será que ela tem na fala,
Mais do que charme, canhão?
Ou pensam que, pelo nome,
Em vez de Nara, é leão?

Se o general Costa e Silva,
Já nosso meio-chefão
Tem pinta de boa praça,
Porque tal irritação?

Ou foi alguém que, do contra,
Quis criar amolação
A seu
Artur, inventando

Este caso sem razão?
Que disse a mocinha, enfim,
De inspirado pelo cão?
Que é pela paz e amor
E contra a destruição?

E, depois, se não há preso,
Político na ocasião,
Por que fazer da menina
Uma única exceção?

Ah, marechal, compre um disco
De Nara, tão doce, tão
Meigamente brasileira,
E remeta ao escalão;

Ao ouvir o que ela canta
E penetra o coração,
O que é música de embalo
Em meio a tanta aflição.

O gabinete zangado
Que fez um tarantantão,
Denunciando Narinha,
Mudava de opinião.

De música precisamos
Para pegar o rojão,
Para viver e sorrir,
Que não está mole não.

Nara é pássaro, sabia?
E nem adianta prisão
Para a voz que pelos ares,
Espalha sua canção.

Meu ilustre general,
Dirigente da nação,
Não deixe, nem de brinquedo,
Que prendam Nara Leão.

 

Nara me fez conhecer Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Kéti, Chico Buarque de Hollanda, Eduardo Lobo, João do Vale, Sidney Miller, Sérgio Ricardo, Carlos Lyra, Glauber Rocha, Cacá Diegues... enfim, são tantos.



Nara não pode ter sido a melhor cantora que este país já teve, mas, com certeza, foi uma das mais influentes. Menina transgressora, como faz falta. 

Moça de opinião que faz muita falta, tenho certeza que mesmo com a idade que estivesse não ficaria assistindo em cima do muro esse governo pernicioso com fetiche por macartismo como essa juventude frívola que não conhece o seu passado e pensa em ter um bom futuro.

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